“O encontro com o objeto é, de fato, um reencontro.”
— Sigmund Freud
Essa frase simples de Freud carrega uma das ideias mais bonitas — e talvez mais inquietantes — da psicanálise: não amamos alguém pela primeira vez.
Amamos de novo.
Desde muito cedo, somos atravessados pelo olhar, pelo toque, pelo som da voz daqueles que cuidam de nós. Antes mesmo que o corpo descubra a sexualidade biológica, ele já foi tocado pelo afeto, pelo desejo e pela presença do outro. É assim que a psicanálise entende a sexualidade: não como algo apenas físico, mas como uma experiência intersubjetiva, onde o corpo é habitado pela história emocional de quem nos amou primeiro.
Cada encontro amoroso na vida adulta é, em alguma medida, uma reabertura dessas experiências primitivas. Quando amamos, desejamos, odiamos ou nos frustramos com o outro, reencontramos algo das nossas primeiras relações — aquilo que moldou nossa forma de amar e de ser amados.
Por isso, as relações amorosas costumam ser ambivalentes: misturam ternura e raiva, desejo e medo, entrega e defesa. Não há como amar sem tocar nesses pontos de conflito, sem reviver algo do que foi vivido antes.
A psicanálise propõe, então, uma reflexão:
👉 Será que conseguimos amar o outro como ele é — ou o amamos pelo que ele representa da nossa própria história?
Essa pergunta não busca uma resposta definitiva, mas um caminho de descoberta.
O processo analítico nos convida a reconhecer o que, em cada amor, é repetição — e o que pode ser criação. Porque, se amar é reencontrar, também pode ser reaprender a se inventar com o outro, sem apagá-lo, sem negá-lo, sem fazê-lo caber apenas nas nossas fantasias.
O amor, como nos lembra Drummond, é aquilo que permanece mesmo quando se perde.
E talvez o verdadeiro encontro amoroso seja aquele em que dois inconscientes se reconhecem — não como metades que se completam, mas como presenças que se transformam mutuamente.
Caroline Ferreira Fernandes Guimarães
Psicóloga Clínica e Psicanalista – CRP 04/66547
Belo Horizonte – MG

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