Memória
Carlos Drummond de Andrade
Amar o perdido
Deixa confundido
Este coração.
Nada pode o olvido
Contra o sem sentido
Apelo do Não.As coisas tangíveis
Tornam-se insensíveis
À palma da mão.
Mas as coisas findas,
Muito mais que lindas,
Essas ficarão.
Drummond, com sua delicadeza e profundidade, nos convida a olhar para aquilo que nunca se perde completamente. Amar o perdido — como ele diz — parece algo ilógico, mas no terreno do inconsciente, o que é da ordem do amor e do desejo nunca obedece à lógica racional.
Na psicanálise, entendemos que o amor é um investimento libidinal, um movimento de energia afetiva que direcionamos ao outro. Mas esse investimento não é novo a cada encontro: ele carrega consigo a marca das nossas primeiras experiências de amor — aquelas que nos constituíram, ainda nos primórdios da vida.
Antes de amar alguém, fomos amados (ou não) — e é nesse tecido inicial que o inconsciente borda os modos pelos quais amaremos no futuro. Por isso, toda relação amorosa é também um reencontro: reencontro com algo do passado, com um afeto que permanece vivo em nós, mesmo quando acreditamos tê-lo superado.
Somos feitos de rastros. O outro que amamos hoje desperta em nós ecos de amores antigos, de vínculos que moldaram nossa forma de desejar, de cuidar e de sofrer. Como diz Drummond, “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão” — e é nesse permanecer que mora a verdade mais profunda do amor: o que amamos, mesmo perdido, continua habitando em nós.
O trabalho analítico nos ajuda justamente a reconhecer essas presenças invisíveis, a compreender o que se repete, o que insiste, o que pede tradução. Amar, afinal, é também uma forma de lembrar — e de se reencontrar com o que nunca foi completamente esquecido.
Caroline Ferreira Fernandes Guimarães
Psicóloga Clínica e Psicanalista – CRP 04/66547
Belo Horizonte – MG

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