Ser mãe ou pai na contemporaneidade é um desafio profundo e complexo. A parentalidade nos coloca diante de responsabilidades que nos exigem presença, atenção e sensibilidade, e muitas vezes nos leva a reviver nossos próprios cenários infantis — memórias, carências, frustrações e experiências de cuidado que marcaram nossa formação. Ao cuidar de nossos filhos, confrontamos não apenas suas necessidades, mas também as nossas feridas, nossas expectativas e os modelos que recebemos ou que nos faltaram.
A psicanálise winnicottiana nos ajuda a compreender que não existe parentalidade perfeita, mas existe o cuidado suficientemente bom. Para Winnicott, o “ambiente suficientemente bom” é aquele que acolhe, protege e responde ao bebê com sensibilidade, oferecendo limites sem sufocar, suporte sem invadir. É nesse espaço que a criança pode desenvolver confiança, espontaneidade e um senso de continuidade do self, e que os pais podem aprender a lidar com seus próprios sentimentos e experiências não resolvidas.
O maternar e o paternar não são apenas funções práticas; são processos emocionais ricos e complexos. Cada gesto de atenção, cada resposta à frustração ou ao choro, é uma oportunidade de transmitir segurança e de construir vínculos autênticos. E, ao mesmo tempo, a parentalidade nos ensina sobre a própria vulnerabilidade: como lidar com a ansiedade, a culpa e os limites inevitáveis do nosso cuidado.
A psicanálise, especialmente na abordagem winnicottiana, oferece um espaço de reflexão e compreensão para que pais e mães possam acolher suas imperfeições, perceber suas próprias necessidades e, assim, oferecer aos filhos um ambiente emocionalmente seguro, rico em afeto e consistência. É no encontro entre o cuidado oferecido e o cuidado recebido que se abre a possibilidade de relações menos conflituosas, mais criativas e profundamente humanas — onde a criança cresce e os pais também se descobrem e se transformam.
Psicóloga – Psicanalista Caroline Ferreira Fernandes Guimarães
CRP 04/66547
