O direito de existir é uma conquista e não um fato dado – Cenas de uma análise:

Há vidas que se constroem em silêncio — não o silêncio tranquilo do repouso, mas aquele que nasce do medo de existir demais. Há quem tenha aprendido cedo que a própria presença podia ser incômoda, que o gesto espontâneo precisava ser contido para não perturbar o outro. Quando o olhar que deveria sustentar se ausenta, o mundo perde textura. O que resta é o esforço constante de sobreviver, de caber, de não ser abandonado — mesmo que, por dentro, algo vá murchando lentamente.

Winnicott nos ensinou que só existe possibilidade de ser quando há um ambiente capaz de sustentar esse ser. Quando alguém, com sua presença viva, devolve a nós o reflexo da própria existência e a torna suportável. É esse olhar que funda o direito de existir — um olhar que reconhece, que nomeia, que confere dignidade ao que somos antes mesmo de qualquer palavra.

A análise, nesse sentido, é um espaço de reconstrução desse direito. Não se trata de ensinar alguém a ser, mas de oferecer as condições para que o ser se reencontre consigo. No gesto de escuta, na sustentação silenciosa, no olhar que não invade, nasce um ambiente novo — suficientemente bom para que o self, até então retraído, possa emergir.

Reencontrar o direito de existir é reaprender a confiar na continuidade. É poder respirar sem medo de colapsar. É descobrir que há um solo interno que não depende mais da resposta do outro para se manter de pé. E, talvez, o mais bonito desse processo seja perceber que a vida não precisa ser uma sobrevivência — ela pode, finalmente, ser um gesto de criação.

Porque existir, de fato, é se deixar ver. É permitir que algo de verdadeiro se apresente ao mundo, mesmo sem garantias. É nascer de novo, agora sob um olhar que não aprisiona, mas sustenta — um olhar que, enfim, reconhece: você tem o direito de ser.


Caroline Ferreira Fernandes Guimarães
Psicóloga Clínica e Psicanalista – CRP 04/66547
Belo Horizonte – MG

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