Há quem viva preso na própria cabeça.
Pensa para não sentir, raciocina para não desabar.
Conta passos, mede ideias, tenta organizar o caos como se a vida coubesse num cálculo exato.
Cada pensamento vira um tijolo erguido contra o medo — uma muralha que protege, mas também isola.
O corpo, no entanto, sabe.
Lateja nas brechas da ordem, pede passagem, sussurra o que o pensamento tenta calar.
Porque há dores que não se resolvem com lógica, há vazios que nenhuma lista preenche.
O neurótico obsessivo vive nesse entre-lugar: entre o querer e o poder, entre o sentir e o dever.
Faz do controle sua salvação e do excesso de pensamento sua forma de fugir do desamparo.
Busca a pureza de uma mente sem falhas, como quem tenta conter o mar com as mãos.
Mas, no fundo, o que deseja é simples:
existir sem precisar provar,
errar sem culpa,
respirar sem planejar.
Só que a angústia é esperta —
se disfarça de racionalidade, de eficiência, de tarefa.
E assim, entre tantas tentativas de dar conta de tudo,
a vida vai ficando para depois.
Pensar demais também é uma forma de chorar em silêncio.
A análise é o espaço onde o pensamento pode, enfim, descansar —
e o sentir pode ter voz.
Caroline Ferreira Fernandes Guimarães
Psicóloga Clínica e Psicanalista – CRP 04/66547
Belo Horizonte – MG

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